30 de out de 2017

2017: 50 ANOS DO STUDIO BEMOL

 A história da música brasileira passa aqui!

Dirceu e Ricardo Cheib - foto: Márcia Francisco


Um dos pioneiros da gravação no Brasil, fundado em 1967, quando existiam apenas quatro estúdios fonográficos no País e, também, pioneiro em gravações profissionais em Belo Horizonte, o Studio Bemol, completa 50 anos  de uma história brilhante. Tendo à frente Dirceu Cheib, um de seus fundadores, testemunha ativa da história da música e respeitável engenheiro de som, o estúdio se tornou referência obrigatória no que diz respeito à história da produção fonográfica brasileira e, também,  da música que vem de Minas.

A sala é atestada por muitos dos  grandes produtores  - entre eles Marco Antônio Guimarães-Uakti, André Abujamra-Karnak e Dudu Marote - como uma das melhores salas acústicas do Brasil.

Ao lado de Dirceu, está o filho mais novo, o músico Ricardo Cheib, que também administra a Bemol, por onde passaram  (e passam) inúmeros dos mais prestigiados artistas mineiros, reconhecidos em âmbito internacional, além de grandes nomes da música internacional e  brasileira e onde gerações de artistas se conheceram.

As cinco décadas, reúnem histórias muito especiais. Foi esse estúdio que registrou pela primeira vez, vários artistas mineiros, como o Uakti, Marcus Viana e Sagrado Coração da Terra, Esdra Ferreira–Neném, Fernanda Takai, entre muitos.

Pelo fato de ter sido o primeiro estúdio da cidade, abrimos uma porta com a qual Belo Horizonte nem sonhava. De alguma maneira, temos um papel importante na história da cidade. Houve uma época em que ir para o Rio de Janeiro e São Paulo gravar um disco era difícil. Então, quase todos os artistas daqui passaram pelo Bemol. Era uma maneira dos músicos terem uma espécie de cartão de visitas”  (Dirceu Cheib)


Dirceu Cheib e Ivan Lins, 29 anos após a primeira imagem, acima. Reencontro no Bemol Studio

Milton Nascimento, Gilvan de Oliveira, Wagner Tiso, Pacífico Mascarenhas, Toninho Horta – guitarrista contratado Bemol, no início da carreira, Clara Nunes, Fernando Brant, Ivan Lins, Dominguinhos, Danilo Caymmi, Nelson Angelo e Oswaldo Montenegro, Tavinho Moura, Juarez Moreira, Geraldo Vianna, Weber Lopes,  Beto Lopes, Vander Lee, Antonio Villeroy, Belchior, Celso Adolfo, Skank, Karnak (André Abujanra), Saulo Laranjeira, Flávio Venturini, Nelson Gonçalves, Maurício Tizumba, Marina Machado, Regina Souza, Túlio Mourão, Tino Gomes, Sérgio Moreira, Sérgio Santos, Nivaldo Ornellas, Marco Antônio Araújo, Marku Ribas, Roberto Corrêa, Babaya, Fernando Araújo, André Dequech, Rufo Herrera, Selmma Carvalho, Ladston do Nascimento, Paula Santoro, Renato Motha e Patrícia Lobato, Tabajara Belo, Titane, Chico César, Antonieta Silva (Grupo Instrumental Marina Silva), Edição Brasileira, a escritora Adélia Prado, Mauro Rodrigues, Waldir Silva, Amaranto, Pato Fu, Geraldo Vianna, Beto Guedes, Lô Borges, Paulinho Pedra Azul, Célio Balona, Oswaldo Montenegro, Luís Caldas, Tadeu Franco e até o Presidente JK, estão entre os incontáveis nomes que passaram pelo Estúdioque, também incluem artistas internacionais, tais como: Heikki Sarmanto (maestro finlandês), Scott Anderson (guitarrista de Chicago), Philipp Glass (produtor de estúdio).
Importante registrar, também, que entre as  trilhas de cinema gravadas no Bemol, estão: Lavoura arcaica (Marco Antonio Guimarães), Cabaré Mineiro (Tavinho Moura), A Dança dos Bonecos  (Nivaldo Ornelas) e  O Vestido (Túlio Mourão), O viajante (Tulio Mourão).  Das trilhas para o Grupo Corpo: Bach (Marco Antonio Guimarães), 21 (Uakti), I ching (Uakti)  e Maria Maria (Milton Nascimento)

A história dos 50 anos do Bemol é construída sobre o pilar sólido de empreendimento responsável, experiência, competência, atitude  e olhar atento à evolução dos tempos. O Studio Bemol foi o primeiro estúdio brasileiro a utilizar gravadores transistorizados, lançados na época da inauguraçãomas, não parou por aí.

Reconhecido entre os melhores do mundo, observou com critério a evolução, exercitando a aplicação das tecnologias do analógico ao digital, aperfeiçoando cada vez mais o uso do bom senso, ante os milagres das novas tecnologias. “Tecnologia não é tudo”, afirma Dirceu. O Bemol possui hoje os mais avançados recursos digitais, mas, com a observação da qualidade em foco, vários dos processos e equipamentos utilizados nos trabalhos, são analógicos.  Junto ao segredo do sucesso do Bemol, certamente estão os seres humanos que o  administram. Os Cheib são a alma do estúdio e fazem a diferença. Funcionando em uma sala de gravação muito bem projetada acusticamente – uma das melhores salas acústicas do Brasil - a Bemol atua sob o comando de técnicos experientes e  sensíveis.

RARIDADE E ATUALIDADE
O estúdio possui raridades preciosas, em âmbito mundial,  como um microfone ELLA TELEFUNKEN, considerados a “Mercedes” dos microfones. Ao lado dos equipamentos antigos, famosos e raros no mundo, inovações que amplificam a qualidade sonora produzida ali.
Há cinco anos a Bemol adquiriu um piano de cauda Yamaha  - um C2 - de altíssima qualidade. Sempre atentos a soma das novas tecnologias à indiscutível qualidade do estúdio.


HISTÓRIA
O fundador, Dirceu Cheib, natural de Belo Horizonte/MG - na ocasião estudante  de Direito,  em parceria com o irmão, Afrânio Cheib e o amigo, o advogado Célio Luis Gonzaga resolveram montar uma gravadora. A idéia surgiu quando,  em São Paulo, Célio Gonzaga conheceu o maestro Edmundo Peruzzi que os convenceu a iniciar o empreendimento. O incentivo veio a partir da constatação do  sucesso que  Peruzzi obteve, com a gravação do  LP ‘Violinos no Samba’, pela RGE. Tratava-se de uma idéia inusitada que fez sucesso mundial: uma orquestra sinfônica, com uma cozinha de samba, tocando 12 sucessos da música erudita. Os três sócios – Dirceu, Afrânio e Célio criaram em BH o Selo MGL-Minas Gravações  Ltda, que se tornaria o embrião do Bemol.  Quando os trabalhos começaram, o Selo que,  em seguida passou a chamar-se  Palladium,  criava coleções de discos e contratava vendedores para visitas domiciliares em todas as regiões do Brasil.
Havíamos comprado um quarteirão no município de Betim, para montarmos uma indústria de prensagem de discos. Com as  dificuldades no período ditatorial, tivemos que vender tudo” , registra Dirceu Cheib. O Selo, então, deu lugar ao Estúdio. A produção dos discos era sempre oriunda de outros estados.  A criação do Studio Bemol também facilitou a renovação dos títulos e gravações externas que oneravam os custos com deslocamento das equipes.  Como selo, a empresa bancava o artista e todo o investimento na obra. Houve, de fato, forte crise no mercado, com a ditadura. No estúdio, na época das “vacas magras”, a salvação foi a publicidade e a produção de vts e jingles.  Na década de 80, surgiram os artistas “independentes”, que gravavam e bancavam o próprio trabalho renovando as condições de atuação do Estúdio que explodiu em novas e inéditas produções.
Da sociedade, também a  partir da década de 80, com a saída dos dois sócios de Dirceu, os filhos: Ricardo Cheib (percussionista e engenheiro de som) e Lincoln Cheib (atual baterista da banda de Milton Nascimento) se integraram ao Bemol, hoje administrado por Dirceu e Ricardo.

DIRCEU CHEIB
O Bemol nasceu quando não havia literatura ou informação sobre as tecnologias para montar um estúdio de gravação. A pesquisa era difícil e o estúdio aconteceu com o empenho e persistência do fundador Dirceu Cheib  e os sócios. Dirceu pode ser literalmente considerado um “engenheiro de som”, pois, iniciou seus trabalhos quando o profissional para lidar com áudio e gravações precisava conhecer, além de música, muito da eletrônica contida nos aparelhos. Durante os seis meses de  montagem do estúdio e,  principalmente,  da mesa de gravação, Dirceu iniciou aulas de Eletrônica básica com Canazarro, engenheiro que veio para  Minas Gerais, dirigir os trabalhos. O aperfeiçoamento aconteceu com muita experiência prática e,   a partir de 1974,  com viagens a Chicago, onde mora  o Geraldo de Oliveira, músico, engenheiro de áudio e amigo de Cheib que  sempre o acolheu e o  encaminhou a excelentes estúdios. Gravando de orquestras a grupos de samba, passando por instrumental, MPB, pop, sertanejo ou heavy metal, trilhas para cinema, peças publicitárias, campanhas políticas, Dirceu ao longo dos anos acumulou uma vasta experiência nos mais variados tipos de trabalho dentro de um estúdio. Ao desempenhar funções de engenheiro de som, produtor ou técnico de manutenção, ele acompanhou os vários estilos musicais passando por seu estúdio, também viu concorrentes surgirem e desaparecerem da noite para o dia.   Durante muitos anos o estúdio trabalhou no mercado mineiro quase que sem concorrentes, ao contrário de hoje, quando os estúdios se multiplicam diariamente. O diferencial do Bemol soma a sala de gravação bem projetada acusticamente à experiência dos técnicos e ao ambiente acolhedor, carismático e de confraternização que a história deste estúdio construiu.

Presenciei  as válvulas se tornando “coisa do passado” para alguns e também, vi  o surgimento dos solid-state e, recentemente, vi  o retorno das válvulas à moda.  Vi o digital engatinhando no inicio dos anos oitenta e seu crescimento. Meu trabalho tem como referência o bom senso. Embora utilize uma série de ferramentas digitais, vários processos e equipamentos empregados no Bemol são analógicos, por escolha.” (Dirceu Cheib)

O ESTÚDIO
Inaugurado em 1967, no Bairro Caiçara, o Studio Bemol se mudou para o Bairro de Lourdesem 1981, ocupando uma casa alugada do músico Pacífico Mascarenhas, adaptando sua construção ao modelo do estúdio da Universal em Chicago e, em 1992, a equipe construiu a nova sede, instalada no Bairro Serra, seu atual endereço.

A primeira console foi montada  em BH, com os componentes importados; Pres valvulados Langevin,VCs Gotham e outros contemporâneos. O primeiro estúdio Bemol foi projetado pelo técnico de eletrônica, com experiência em gravação,  Sérgio Lara Campos. Havia uma mesa  com 12 entradas e 4 Bus, 2 gravadores Ampex transistorizados de Rolo ¼ de polegada, os primeiros do Brasil, na época,  Stereos e excelentes microfones, incluindo 4 ELLA Telefunken. Toda a orquestra (ou banda) se reunia  dentro do estúdio e tudo era gravado de uma vez, no primeiro Ampex o segundo gravador era usado para juntar voz e Banda. “Se alguém errasse....todo mundo tinha que tocar tudo novamente”, lembra Dirce Cheib.

O atual Studio Bemol foi projetado pelo arquiteto, músico e professor universitário Dr. José Osvaldo Moreira. Em plena atividade, hoje, a Bemol conta com 84 metros quadrados de estúdios, mesas digitais e analógicas e atua atenta ao principal: a união da qualidade na apresentação final à fidelidade ao som original. 

Na pauta dos 50 anos, novos clientes, idéias, a concretização do antigo sonho da produção de um livro com a família Cheib e consultores – testemunhas oculares de inúmeros fatos pitorescos -  contando a história do Bemol, que se funde com nossa  música e artistas, nestas quatro décadas. 

CURIOSIDADES, ERROS E ACERTOS...

Primeiro cliente:
“Enquanto ainda estava tudo no tijolo, surgiu um rapaz, querendo gravar seu disco. Era o José Vicente, violonista, de Cruzília e, no Bemol gravou seu primeiro Álbum,  “Noite de Lua” – este também foi o primeiro disco gravado em Belo Horizonte”. (Dirceu Cheib)

Sumiço:
No início do Estúdio, o Bemol gravou um disco da cantora Clara Nunes, que estava começando sua carreira. Porém, um defeito fez com que o disco fosse recolhido do mercado. Quando foram prensar  novamente,  a Odeon contratou Clara. Desde a época até hoje a matriz do disco dela e a fita estranhamente sumiram! E todo o trabalho foi perdido.


Juscelino Kubitschek:
 A passagem de Juscelino pelo Bemol se deu através da participação na gravação de um disco de serestas. O disco apresentava as músicas preferidas do ex-presidente e foi gravado na época em que ele estava cassado.  “Era um disco que ia arrebentar, pensávamos. Juscelino fez a gravação de uma fala e todo mundo pensava que ele estava cantando no disco. Mandamos fazer dez mil capas.  Recebi telefonemas de emissoras de rádio de todo o Brasil, pedindo preferência. No entanto, não deu certo! O AI-5 foi editado: censura do regime militar embargou o vinil. Tratava-se de um disco que nada tinha a ver com o momento político –seresta – mas, como ex-presidente estava envolvido mandaram recolher tudo”, conta Dirceu Cheib.

Jingles famosos
Quem tem mais de 30 anos, certamente se lembrará do comercial televisivo do Arroz Paranaíba (1972), em que uma animação apresentava o “batalhão do apetite”. As vozes, gravadas no Bemol,  eram dos irmãos Ricardo Cheib, Lincoln Cheib e dos colegas de rua, da época da infância. São da mesma época os comerciais da Belo Horizonte Couros, Lojas Bakana, Motorauto, Ari Amortecedores e outros famosos na cena local.

A MÚSICA FALA:
"Bemol, primeiro estúdio conhecido pelos músicos de Minas e adjacências, é um símbolo de persistência e qualidade. Acho que a maioria dos amantes do som já passaram pelas mãos, ouvidos e competência do Dirceu e seus asseclas, em pauta. Parabéns também aos sustenidos, tons aos afinados (ou não), arranjadores, todas as espécies de artistas, filhos de Santa Cecília. Abraços."

Milton Nascimento 


"No final da década de 70, o Uakti ainda não existia como grupo e eu havia construído poucos instrumentos. Foi quando, por gentileza de Dirceu Cheib, tivemos a oportunidade de gravar em estúdio, pela primeira vez, esses instrumentos. Saímos de lá com um rolo da velha e boa fita de 1/4 mixada. Foi uma festa. Dessa época até hoje, tivemos a oportunidade de gravar na Bemol vários cd's do Uakti, trilhas para cinema, balés para o Grupo Corpo, além de trabalhos solos. São muito boas as lembranças de todas essas gravações: o inalterável bom humor do Dirceu, assobiando trechos das músicas, a grata surpresa da competência técnica e musical do Ricardo, a simpatia da Vilma, o café do Cosme. Vida longa à Bemol, com meus agradecimentos e do grupo Uakti."

Marco Antônio Guimarães



"Quando gravei minha primeira demo, no fim dos anos 80, escolhi a Bemol quase por acaso, mas depois percebi que
 estava num dos melhores estúdios do Brasil. Não adianta ter equipamento se a equipe não tratar cada músico e cantor com a atenção e carinho merecidos. Gravei o terceiro disco do Pato Fu ("Tem mas acabou") na Bemol e acredito que sempre retornaremos para projetos futuros e para dar um abraço nos amigos!" 
Fernanda Takai



"As trilhas sonoras para o cinema e a maioria de meus discos foram criados e gravados na Bemol. Ali eu me sinto em casa, seguro da competência técnica, da qualidade e cercado das amizades que cultivo a anos. Parabéns, Bemol !" 
Tavinho Moura



"Dirceu e Ricardo: é quase impossível se referir à música mineira sem falarmos na Bemol. Desde o começo dos anos 60 até agora, ela se tornou um elemento importante da (na) cena musical de Belo Horizonte, aperfeiçoando-se e acabando por se confundir com a própria música mineira. Quase todos nós tivemos a nossa estréia em um estúdio de gravação através da Bemol. Recomendo a Bemol pelo profissionalismo e seriedade." 
Juarez Moreira 


"Minha primeira gravação aconteceu na Bemol, nos anos 70. A partir de então, minha vida profissional esteve sempre ligada a esse estúdio. Tenho trabalhado em muitos outros bons estúdios. É ali, no "ambiente dos Cheib", que me encontro mais fácil com a música. Talvez seja pela sala, pelas máquinas, mas principalmente pela atenção que recebo. Por tudo e para todos, meu muito carinhoso obrigado." 

Mauro Rodrigues 


"A gravação de um cd não se resume apenas ao registro de uma obra fonográfica. Durante a produção em estúdio, nos envolvemos profundamente com aspectos psicológicos, que certamente vão influenciar a qualidade e o desempenho de nossa "performance". Por este motivo, considero de extrema importância escolher bem as pessoas que estão à minha volta, para que o artista tenha um suporte técnico de alto nível, e, acima de tudo, amizade e respeito daqueles que auxiliam na difícil empreitada de gravar um disco. Dirceu Cheib, com sua equipe da Bemol, através de anos de experiência, conseguiu unir todas essas características profissionais e humanas. Com carinho e personalidade, ele tornou o estúdio Bemol um dos principais pontos de produção do país. Como a história somente é vista quando lançamos um olhar para o passado, certamente, no futuro, poderemos constatar sua importância e generosidade partilhadas no presente em que vivemos.”
Geraldo Vianna


"Na Bemol eu consigo ouvir o verdadeiro e cristalino som de bateria, dos melhores do Brasil."
Esdra Ferreira (Neném)


"Existem várias coisas de que a gente precisa saber para gravar bem, a primeira é o telefone da Bemol. Um lugar em que eu gravo muito, me da segurança no take e na finalização."

Ruben de Souza 


"Não sou de sustenido; sou de Bemol. Estarei sempre com essa família, faça chuva ou faça sol" 

Paulinho Pedra Azul

 "Quando entrei para o mundo da música, a Bemol estava nascendo. Desde 1967, ela está presente em minha vida e ali foram gravados sonhos, momentos e canções inesquecíveis. Ali eu semeei amizades eternas.” 
Fernando Brant

Assessoria em Comunicação e Imprensa:  Márcia Francisco

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